Junto com muitos outros convidados, estive no fim de semana passado na mineira Santana do Riacho, cidade ainda menor do que seu próprio nome sugere nos domínios do Parque Nacional da Serra do Cipó, a norte de Belo Horizonte.
Fui participar da décima edição do Bota pra Correr, evento que a anfitriã Olympikus, marca esportiva brasileira que neste ano completa 50 anos, organiza desde antes da pandemia.
Todas as edições têm sido em cartões-postais brasileiros –Jalapão, Chapada dos Veadeiros, Itacaré, Alter do Chão, Corumbá. Biomas variados, com predomínio da mata atlântica e do cerrado.
Foi minha segunda participação nesses “BPCs”, antes estive em Morretes, no Paraná, quando corri uma meia maratona no asfalto. Em Minas fui para o trail run, também 21km, com descidas cabulosas, cachoeira, subidas felizmente não tão matadoras e algumas situações em que os ligamentos dos meus tornozelos foram mais testados do que os do Cafuringa em jogos contra o Olaria.
Em Minas, uma das grandes atrações foi a presença do médico e colunista da Folha Drauzio Varella, que palestrou na véspera da prova. Numa apresentação freestyle, ele falou, entre outros temas, de seu despertar temporão para a atividade física, de como o excesso de água causava em maratonistas de Nova York hiponatremia –risco de que falamos em coluna recente–, de como a corrida ou o ato de subir repetidamente escadas, como ele faz, libera moléculas que chegam ao cérebro, atravessando a barreira do líquor e gerando uma fortíssima sensação de bem-estar e “otimismo”.
O evento é deficitário —”não é, nem nunca foi, para gerar ROI (retorno sobre investimento, no acrônimo em inglês)”, como disse Márcio Callage, CMO da Vulcabras, empresa detentora da Olympikus–, mas gera grande retorno em “buzz” de marca.
A Olympikus fez nos últimos anos enorme esforço para ser vista como marca esportiva que oferece qualidade, a despeito do preço inferior ao das concorrentes gringas.
Até aqui cheguei para dizer que é injustificado que sigamos dando as costas para a natureza e outras áreas verdes, mesmo nas cidades. Esse déficit de natureza, expressão hoje consolidada na literatura científica, priva as pessoas de benefícios físicos e mentais evidentes.
E nem é preciso correr. Nas crianças com contato regular com áreas verdes, relatório da Unicef mostrou pressão arterial mais baixa e níveis menores de hormônios de estresse, como relatou esta reportagem da Folha.
É bastante justificável, portanto, que corredores urbanos, tendo conhecido a trilha, façam uma conversão quase religiosa, abandonando liminarmente as provas de rua.
Mas há um paradoxo. Terminei a prova em três horas cravadas (mais precisamente, 3:00:52) e talvez seja incapaz de descrever com muita precisão os cenários pelos quais passei.
Havia uma bonita cachoeira, pela qual passei batido, e em algum momento lembro de ter corrido um quilômetro ou dois à beira de um riacho –talvez aquele que valeu a fundação da cidade.
É natural que os equipamentos para a trilha, como o tênis Corre Trilha, da Olympikus, sejam marginais no mercado esportivo doméstico. Vivem nas cidades 87% dos brasileiros, e as cidades, com raras exceções, não têm grandes áreas verdes ou florestas no seu interior.
Subir escadas ou correr no Minhocão, como faz Drauzio, pode ajudar muito no condicionamento físico, mas, como diz a música, talvez fique faltando um pedaço.
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